A trágica morte de Susy Nogueira Cavalcante, de 21 anos, trouxe à tona um dos casos mais graves de violação de direitos e vulnerabilidade dentro de uma unidade de saúde. Internada em uma UTI após uma grave crise convulsiva, sedada e contida, Susy foi vítima de violência sexual praticada por um técnico de enfermagem durante a madrugada — um crime registado pelas câmaras de segurança da instituição.
Apesar de a vítima ter conseguido relatar o abuso a uma funcionária — o que resultou no afastamento e posterior prisão preventiva do profissional —, a família não foi comunicada imediatamente sobre o ocorrido. Nove dias após a internação, Susy acabou por falecer.
Reviravolta e o papel crucial da perícia técnica
Inicialmente, a causa apontada para o óbito foi embolia pulmonar. No entanto, a realidade dos factos veio parcialmente à tona apenas durante o velório, quando o pai tomou conhecimento da violência sexual sofrida pela filha. Com o avanço das investigações policiais e médico-legais, uma nova informação crítica emergiu: um laudo identificou uma lesão na traqueia decorrente do procedimento de intubação.
Diante de cenários complexos que envolvem suspeitas de violência, falhas assistenciais e óbitos sob custódia hospitalar, o trabalho pericial torna-se indispensável para:
Reconstruir a linha do tempo: Analisar minuciosamente prontuários, imagens de segurança, registos de enfermagem, medicações administradas e protocolos de contenção.
Avaliar protocolos clínicos: Investigar a conduta técnica adotada durante o procedimento de intubação e apurar se a lesão traqueal esteve associada à assistência prestada.
Determinar nexo causal: Esclarecer se as falhas ou lesões identificadas contribuíram, direta ou indiretamente, para o agravamento do quadro clínico e para o desfecho fatal.
Separar evidências de suposições: Transformar documentos técnicos, vestígios e dados clínicos em respostas claras para determinar responsabilidades legais e éticas.
O caso reforça que, quando uma paciente entra vulnerável em uma UTI, o dever absoluto da equipa e da instituição é protegê-la. Quando essa proteção falha, a rigorosa reconstrução técnica e independente da verdade torna-se a única via de justiça.
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