O líder político Venâncio Mondlane endereçou uma carta formal ao Presidente da República, Daniel Chapo, contendo um forte desabafo e uma retrospetiva crítica sobre a situação política e social de Moçambique desde 1994 até ao presente ano de 2026. No documento, Mondlane esclarece que a iniciativa não visa atacar a figura do Chefe de Estado, mas constitui um ato de responsabilidade e um apelo urgente à legalidade, à consciência estatal e à preservação da paz, numa fase em que considera que o país vive o período mais sombrio da sua história em matéria de direitos humanos.
Retrospetiva de violência e episódios de repressão
Na missiva, Venâncio Mondlane atua como representante de milhões de moçambicanos que aspiram por um país mais livre, justo e democrático, enumerando diversos episódios de violência que marcaram os últimos anos. Entre os eventos evocados, destacam-se a repressão policial violenta à marcha de homenagem ao músico Azagaia em março de 2023, o uso de munições reais nos protestos pós-eleitorais autárquicos do mesmo ano e o assassinato do advogado Elvino Dias em outubro de 2024.
“A atuação das autoridades gerou uma onda de violência sem precedentes, resultando na morte de cerca de 400 cidadãos inocentes e desarmados durante os cinco meses de protestos pós-eleitorais”, denunciou o político na carta.
Mondlane relembrou ainda que, no dia do seu regresso ao país após o exílio, a 9 de janeiro de 2025, e na data da tomada de posse de Daniel Chapo, a 15 de janeiro de 2025, registaram-se mortes de jovens por forças sob o comando estatal. O líder político criticou de forma severa as declarações atribuídas ao Presidente em Pemba, em fevereiro de 2025, onde foi mencionada a expressão “jorrar sangue”, interpretada por Mondlane como uma instrução clara para uma atuação implacável contra os manifestantes.
O impasse no diálogo e as denúncias de perseguição ao ANAMOLA
Um dos pontos fulcrais do documento detalha o histórico de negociações entre os dois líderes, com início a 23 de março de 2025. Naquela reunião, ambas as partes acordaram pontos essenciais para a pacificação da nação:
- Cessação imediata de qualquer ato de violência.
- Garantia de assistência médica aos feridos dos protestos.
- Atribuição de indemnizações às famílias das vítimas.
- Libertação de todos os cidadãos detidos nas manifestações.
Apesar de Mondlane ter cumprido a sua palavra ao apelar publicamente à suspensão das contestações, o político acusa Daniel Chapo de recuar e negar a existência de qualquer compromisso em declarações à CNN Portugal, afirmando que “onde não há acordo, não há nada para cumprir”. Mondlane alega que, entre março de 2025 e maio de 2026, o seu partido, o ANAMOLA, foi alvo de mais de 450 casos de violência e 56 mortes, incluindo o homicídio de Anselmo Abílio Vicente, coordenador político em Chimoio, a 9 de maio de 2026.
Aviso ao Governo e alerta de corte de internet
“Da minha parte, fiz tudo desde o primeiro encontro. Cumpri a minha palavra, mesmo com custo reputacional perante o povo”, desabafou Mondlane, reiterando que continua aberto ao diálogo genuíno, mas avisando que o povo poderá procurar outras formas de resistência se ficar privado de canais legítimos de justiça.
Pouco após a divulgação do documento nas redes sociais, Venâncio Mondlane emitiu um aviso suplementar aos internautas. Sem revelar as fontes, o político alertou que uma equipa recebeu ordens para efetuar um bloqueio ou corte nos serviços de internet em Moçambique nos próximos dias, exortando o público a descarregar e instalar aplicações de VPN para garantir a continuidade da comunicação e do acesso à informação.
Fonte: Redes Sociais Oficiais de Venâncio Mondlane / Comunicado Político