O cenário político em Moçambique volta a ser manchado pelo sangue da intolerância. Pedro Chauke, um ativo apoiante do partido ANAMOLA — força política sob a liderança de Venâncio Mondlane —, perdeu a vida após ser baleado no interior da sua própria casa. O homicídio ocorreu na pacata localidade de Mucambene, situada no distrito de Massangena, província de Gaza.
De acordo com relatos de moradores e testemunhas que acompanharam o rescaldo da tragédia, os assassinos fugiram do local levando o automóvel da vítima. Para as comunidades locais e observadores políticos, o roubo da viatura não passou de uma manobra de diversão para simular um assalto comum e camuflar o que consideram uma clara execução sumária com motivações estritamente políticas.
O Debate: Interação, Entrevista e Confronto de Ideias
Estúdio DW África: O ambiente de medo regressou em força às províncias do sul. Para entender a gravidade deste ecossistema de coação, conversamos hoje com o Professor Adriano Nuvunga, Diretor Executivo do Centro para a Democracia e Desenvolvimento (CDD).
DW África: Professor Nuvunga, o assassinato de Pedro Chauke em Gaza é um sinal de que as garantias democráticas falharam de vez no país?
Adriano Nuvunga: Não estamos simplesmente perante uma falha ou um défice na nossa jovem democracia. O que Moçambique enfrenta hoje é a consolidação de um Estado criminalizado. O aparelho de poder central está a ser instrumentalizado para aniquilar fisicamente quem pensa de forma diferente. É a manifestação mais pura e bárbara da intolerância partidária.
DW África: Mas falar em “eliminação de adversários” pressupõe uma estrutura montada. O senhor defende que este homicídio foi planeado?
Adriano Nuvunga: Sem a menor sombra de dúvida. Trata-se de crime organizado na sua forma mais cruel, executado por esquadrões da morte. E convém dar nome aos bois: estes grupos armados são desenhados, financiados e orientados diretamente a partir das cúpulas e esferas do poder instalado.
DW África: Essa é uma acusação gravíssima. Moçambique convive pacificamente com milícias estatais ocultas?
Adriano Nuvunga: Infelizmente, tornou-se a nossa imagem de marca internacional. O regime atual convive perfeitamente com o homicídio político. Isto não começou ontem. No passado, o alvo preferencial destas ações violentas e cíclicas era a RENAMO. Agora que o ANAMOLA surge como uma força mobilizadora, o foco mudou. O plano é sabotar a infraestrutura política de Venâncio Mondlane. Querem espalhar o pânico para que o cidadão comum tenha medo de se filiar ou de apoiar a oposição.
DW África: No entanto, o país dispõe de tribunais e de uma Procuradoria Geral da República. Onde está o sistema judicial nesta equação?
Adriano Nuvunga: A nossa justiça está sitiada, capturada pelos interesses do partido que governa. Há uma parede institucional intransponível: as queixas são ignoradas, as investigações contra figuras influentes desaparecem misteriosamente e os processos entram em gavetas sem fundo. O resultado prático é este clima de impunidade absoluta, onde se cometem barbaridades contra os direitos humanos e ninguém é responsabilizado.
Impacto na Sociedade Civil
A morte de Chauke reacende o debate internacional sobre a falta de garantias de segurança para o pluralismo partidário em Moçambique. Enquanto o medo se instala nas bases do ANAMOLA, o silêncio das autoridades governamentais face às acusações de conivência com milícias armadas continua a alimentar a desconfiança da população nas instituições públicas.

Fonte: Conteúdo adaptado com base na cobertura jornalística da DW África (Reportagem de António Cascais) e declarações públicas do Centro para a Democracia e Desenvolvimento (CDD).